A primeira vez que ouvi falar algo parecido com isso foi quando eu era criança, porque na pequena cidade interiorana onde eu morava havia uma escola cujo nome era Sóror Angélica. Sóror era uma palavra estranha, não parecia nome de mulher, apesar de estar acompanhado pelo nome de uma. Soube depois que Sóror significava irmã, de congregação religiosa, e só anos mais tarde a palavra sororidade e sua ideia de irmandade mudariam minha vida para sempre.

União, respeito e solidariedade entre mulheres. Pode parecer simples entender o significado de sororidade e achar fácil praticá-la. Se somos mulheres e sabemos bem quais são os sapatos que diariamente nos apertam, nada mais justo do que apoiarmos umas às outras. Só que agir com sororidade com outras manas é difícil nas pequenas nuances cotidianas.

No dia a dia, na prática, qual é a dessa tal de sororidade? Vejamos.

A rivalidade feminina é construída

A gente cresce com uma lista de expressões e adjetivos pejorativos às mulheres, geralmente as humilhando ou atacando atitudes de cunho sexual. São vozes que ecoam desde muito longe e que insistem que “mulheres juntas dão muitos problemas”, “mulher tem personalidade difícil, é ciumenta, explosiva, competitiva, XXXXX (inclua aqui um adjetivo detestável de sua preferência)”. É complicado lutar contra algo que aprendemos desde cedo: detestarmos umas às outras.

instarix

O que está por detrás disso?

Você já parou para pensar que, enquanto estamos lutando umas contra com as outras, o outro lado – a dominação masculina – ganha força? A rivalidade é, assim, uma ferramenta do patriarcado, um sistema de dominação de homens sobre mulheres. Enquanto estamos competindo por padrões de beleza inatingíveis ou julgando e condenando mulheres, simplesmente por serem mulheres, somos cada vez mais vítimas de um sistema que privilegia os homens e violenta milhões de manas.

Não se trata de odiar os homens, mas sim de não estimular o ódio entre as mulheres.

O que perdemos com isso

Ainda que inconscientemente, as atenções das mulheres acabam voltadas para a rivalidade em questões como disputas de namorados ou beleza. Fazemos inimigas e aliadas em critérios envoltos nas nossas relações com homens ou disputamos para ver quem é mais magra, com a bunda mais dura, com o cabelo mais bonito. Esse gasto de tempo e essa energia deveriam ser investidos na conquista de espaços. Um dos reflexos disso é vermos tantas mulheres longe da política, da ciência e demais espaços de poder.

Ao invés de se sentirem representadas por uma mana que alcança um lugar antes sacramentado aos homens, por conta dessa rivalidade construída e alimentada, muitas inconscientemente condenam, torcem contra ou até tentam destruir a colega.

Lady’s Comics

Nadar contra a corrente, eis a nossa força

Eu sempre acho difícil discutir com alguém resistente ao conceito de sororidade e tentar explicar por que dá certo. A resposta é simples. Porque precisamos que dê certo. A força presente em grupos autônomos de mulheres, coletivos, sistemas de compras e vendas das manas tem mostrado que, ao invés de perder tempo competindo ou estimulando a competição, poderíamos fazer algo muito mais poderoso: juntar forças. Isso inclui valorizar mulheres em áreas em que ainda não ocupamos, não julgar e ajudar as manas, das mais diferentes formas.

Não vale escolher

Ter sororidade é apoiar e ter empatia por mulheres que, inclusive, você nunca viu na vida. Mulheres com quem às vezes você não compartilha nada em comum. Nem os gostos, nem escolhas. “Ah, mas tenho muitas amigas diferentes de mim e nos damos bem”. Ok, mas vocês são amigas. É mais difícil quando, sem ter nenhum vínculo ou história vivida com uma mulher, o exercício de termos empatia precisa falar mais forte. Na prática, é ter empatia também por quem não temos simpatia.

Não podemos esquecer das que conhecemos, mas também fazem parte do “rol de inimigas” daquela ~cartilha~ que falamos no início. A ex do seu atual, a atual do seu ex, a sogra, a colega de trabalho que te ferrou em alguma situação. Eu sei, é praticamente um exercício espiritual promovido por Gandhi.

Não se pode obrigar a sororidade

Complementando o item anterior, há inúmeras situações em que mulheres – mesmo sofrendo com o machismo – comportam-se com crueldade com iguais e, partindo desse princípio, fica difícil para a violentada agir com sororidade. Fica difícil ser irmã quando você é a oprimida.

Adriana Wildness – blogger

Pelo bem coletivo, um projeto comum

A sororidade não nasceu agora e muito menos em tempos de Facebook. O espírito de união entre mulheres existe, é natural. É justamente o resgate e a valorização dessa prática que são tão buscados entre muitas mulheres. Desde que venho tendo contato com o tema, a discussão me instiga mais e mais e é provável que esteja presente em outros dos meus textos aqui.

O que eu sei é que, por mais que me falte ainda muito conhecimento sobre todas as perspectivas que vêm dessa discussão, desde que pensei na sororidade como uma prática, um hábito que precisa ser estimulado e ouvido, muita coisa mudou. Não acho que é uma obrigação, nem que exista uma lista de regras. Cada mulher sabe como fazer, como se reconhecer em outra. Fechar o coração para os julgamentos e abrir os ouvidos para conhecer verdadeiramente outra mulher e sua história, apoiar uma mulher a ser mais, a ser livre, torcer pelas outras. Tudo isso – muito tempo depois de eu ouvir a palavra Sóror – tem transformado minha vida.

 

Sobre a autora:

Tatiana C.Lazzaro (arquivo pessoal)

Tatiana Lazzarotto (arquivo pessoal)

Tatiana Lazzarotto se descobriu feminista já nos tempos do Facebook, mas sabia que algo não ia bem desde bem pequena. Tem 30 anos, cinco deles em São Paulo-SP. É formada em Jornalismo e Letras – Português pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro-PR) e pós-graduada em Mídia, Política e Atores Sociais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa(UEPG-PR) e está cursando a 22ª turma de Promotoras Legais Populares.

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