Carta às PLPs.

Companheiras,

Desafiei-me a responder o que já era obvio:

 

Por que preciso do feminismo?

 

Trajetória particular

Encontrei milhares de respostas para esta pergunta, todas são ridiculamente simples e exorbitantemente importantes, mas não eram minhas. Precisei perguntar ao meu eu: O que eu responderia analisando a minha própria experiência?

Uma das coisas que me tiram o sono (essa é só uma, ok?) são as crueldades do nosso mundo, você pode achar um exagero, mas o pensamento é recorrente. Se eu presenciei ou escutei ou vivi, fatos ruins, mesmo que fosse um detalhe aparentemente insignificante, o vicio do meu pensamento trabalha em efeito dominó. Não consigo explicar melhor, minha mente automaticamente calcula e recalcula o que pode vir a desencadear aquele ato, isso também acontece com acontecimentos bacanas, mas as proporções são desfavoráveis (talvez isso explique o porquê que me identifiquei com o curso de ciências sociais).

Em terapia fui aconselhada a observar as coisas boas da vida, retomando o efeito dominó, eu não ignoro as coisas boas da vida. Eu as vejo no canto de um sorriso sincero, num abraço caloroso, no sentimento do reencontro, no brilho dos olhas de uma criança, na luz do sol chegando de manhã ou na noite onde as estrelas e as luzes da cidade ganham destaque, entre outros. Mas isso não resolveu o meu problema, a minha companheira de longa data não me abandonou, a depressão. Ela estava ali, me limitava e continua me limitando muitas vezes, afinal ela ainda me acompanha, nós nos entendemos às vezes, ela me dá algumas tréguas.

Muita gente ainda possui um preconceito com relação à depressão, acham que é frescura, que é só fase e ela não é vista como deveria, uma doença.

Muita gente também aconselharia a pratica da religião como um remédio, mas dentro da religião também encontrei a opressão, resumindo, é uma busca de se tornar um “eu ideal” em um padrão também inconcebível onde o erro acarreta algum tipo de punição.

Por obra do acaso, mas com uma precisão indispensável, me encontrei participando do curso de Promotora Legal Popular, confesso que por muitos encontros estava relutante em me comprometer, confesso também que não sei ainda como será a minha funcionalidade prática neste papel, mas já posso dizer o quanto estou grata pela oportunidade, principalmente por: acender a esperança em fazer terapia, ampliar a vontade de não desistir e por me tornar uma feminista, reintroduzindo o meu eu social e político dentro da sociedade, ou seja, me deu “voz para gritar”.

Meu ganho pessoal com essa dinâmica está sendo visível em desempenho social, ainda continuo com o vicio do meu pensamento, mas hoje não tenho mais vergonha de admitir que eu possuo um problema e descobri que eu sou auto opressora, ou seja, além de sofrer opressões da sociedade a cobrança que tenho com minha própria pessoa também me oprime, confesso que um motivo da minha relutância seria um exemplo dessa auto critica opressora, onde ao me encontrar em um ambiente com mulheres magníficas com uma história de vida marcantes, me via como uma pessoa com problemas insignificantes e pratiquei comigo o que a sociedade geralmente pratica ao ver alguém com depressão, o tão amargo “tá chorando a toa, tua vida não é ruim”. Precisei trabalhar muito a empatia e reconhecer que os meus problemas podem sim ser pequenos comparado ao problema das outras pessoas, mas não é comparando que ele vai sumir, ele tá aqui, tá me incomodando, então ele não pode ser valorado nem comparado, ele é a minha experiência e cada um carrega, aprende com sua própria experiência.

Respondendo então a pergunta inicial, preciso do feminismo porque ele expos, ou melhor, desobscureceu o machismo e as opressões ofuscadas por uma normalidade dissimulada. Vejo claramente agora a importância de ser dono de si, empoderar-se, de se apropriar de conhecimento sempre, de não ter medo de errar e de se retratar, de sempre realizar o exercício de se fiscalizar para não oprimir, de praticar sempre a empatia. Diferente da religião que se preocupa com que o outro pensa de você, mesmo que esse outro seja um ser endeusado, místico, o feminismo me faz olhar pra dentro de mim, pra pratica do amor próprio (que é diferente de egocentrismo), do respeito próprio e da pratica da empatia, que por curiosidade em algumas religiões que possuem maior número de fieis estão visivelmente manifestadas em conhecidas palavras como: “amar o próximo como a ti mesmo”. Pra não deixar de fora o não religioso, temos um dito popular que diz: “não faça com o outro o que não quer que seja feito a você”.

Retomando, preciso do feminismo porque ele me proporciona a receita para libertar o ser humanitário que habita no interior do ser humano.

 

Unidas somos mais fortes, agradeço de coração a receptividade,

Catarina Jorgea Lima Martins.

 

Sobre a autora:

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

 

Catarina cursa Ciências Sociais na UNIFESP e é Promotora Legal Popular em formação da 22ª turma da União de Mulheres de São Paulo.

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