Na noite de 14 de março de 2018 foi assassinada a vereadora negra carioca Marielle Franco. Alvejada por quatro tiros dentro do veículo em que se encontrava, voltando de um evento. O motorista Anderson Gomes também morreu e uma assessora ficou ferida.

Marielle Franco era mulher negra “cria da Maré”, um bairro bastante precarizado da Zona Norte do Rio de Janeiro. Ela foi morta aos 38 anos, mal iniciando o segundo ano de seu mandato como vereadora pelo PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), com a 5ª maior votação na cidade nas eleições municipais de 2016 (46.502 votos).

O mandato de Marielle foi conquistado com a luta de uma mulher negra que começou a trabalhar com 11 anos de idade, tornou-se mãe aos 19, tornou-se militante dos direitos humanos aos 21, depois de ter uma amiga morta em fogo cruzado entre a polícia e traficantes, ingressou na universidade aos 23, e encontrou o amor de sua companheira Mônica algum tempo depois.

Seja na vida política, seja na vida acadêmica, Marielle sempre falou pel@s que não tem voz. Defendeu o direito das mulheres, da população negra, da população da favela, da população LBGT. O título de seu mestrado “UPP – A redução da favela a três letras: uma análise da política de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro”, grita o descaso cruel sobre uma realidade que diz respeito a tod@s nós.

No site da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, consultado esta semana, Marielle Franco foi reduzida também. A busca por seu nome oferece 126 caracteres e uma pequena foto. No quase nada, abismal e displicente, que nos é oferecido pelo texto não é somente a história de Marielle que é apagada. Como já foi dito em muitos outros espaços, são apagadas também as histórias de seus 46.502 eleitor@s, as histórias das centenas de milhares de pessoas da Maré, as histórias de todas as mulheres negras deste país.

Marielle foi assassinada para que se calasse. Quiseram calar sua voz de denúncia contra a opressão do Estado em sua comunidade, tornada ainda mais aguda com o absurdo da intervenção militar no Rio de Janeiro – aprovada no dia 20 de fevereiro de 2018 no Congresso Nacional (na Câmara por 340 a 72 e no Senado por 55 a 13) – prevista para permanecer até o dia 31 de dezembro de 2018.

Aqueles que se amedrontam quando enfrentados por uma Marielle, estão tentando resignificar quem foi Marielle, torná-la desmerecedora de sua vida, corromper a dignidade de sua luta. Eles não conseguirão. Mataram Marielle, mas Marielle não morreu. Por trás do barulho de notícias caluniosas condenadas pela Justiça, para além da página ridiculamente silenciosa que leva seu nome no site da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, vamos nos agarrar a seu sorriso de mulher negra linda, forte, lutadora e poderosa. Sim, poderosa. Sim, lutadora. Sim, forte. Sim, linda. Sim, negra. Sim, mulher. Esses e todos os outros ‘sims’ que sempre tentam transformar em ‘nãos’ nas vidas de tod@as nós.  

Marielle Franco, presente!

 

Imagem: Extraída do site da Câmara Municipal do Rio de Janeiro em 29/03/2018 às 20:16 (http://www.camara.rj.gov.br/vereador_informacoes.php?m1=inform&cvd=311&np=MarielleFranco&nome_politico=Marielle%20Franco)

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