Lançamento do livro Breve História do Feminismo no Brasil e outros ensaios, na Faculdade de Educação da Unicamp, Campinas no dia 26 de junho de 2017.


Apresentação do livro de Amelinha Teles

Breve História do Feminismo no Brasil

Adriana Piscitelli[1]

Começo agradecendo a oportunidade de estar aqui. Para mim é um prazer participar deste momento importante na Unicamp, que é o lançamento da nova edição do livro de Maria Amélia de Almeida Teles, Breve História do Feminismo no Brasil e Outros Ensaios.

Serei breve. Apenas queria destacar alguns aspectos que parecem particularmente importantes deste livro. E o faço, como alguém que acompanha e participa dos debates feministas, desde a década de 1980, a partir de um ativismo acadêmico. Me refiro à articulação entre ativismo e teoria (Mohanty, 1980) e no exercício de práticas teóricas como formas de ativismo (Spivak, 1990).

A versão original desse livro me acompanha desde quase o início do meu doutorado. O mantive comigo ao longo dos anos, porque foi uma ferramenta de trabalho muito útil para o meu trabalho em diversos momentos. Faz um ano mudei, sai de uma casa na qual morei durante mais de trinta anos, que era uma verdadeira casa-biblioteca. Na mudança, tive que me desfazer de mais de dois terços da minha biblioteca. Mas este livro, rabiscado, marcado e comentado, me acompanhou. E, embora sempre o apreciei foi este ano, oferecendo uma disciplina no IFCH, aqui na Unicamp, sobre pensamento pós-colonial, decolonial e feminismos, analisando os trabalhos de uma diversidade de autoras feministas, brasileiras e estrangeiras, tive a oportunidade de refletir, numa perspectiva comparativa, sobre a riqueza deste livro.

Esta nova versão foi enriquecida com a incorporação de novos ensaios, sobre a luta pela creche; sobre as violações dos direitos humanos das mulheres durante a ditadura; sobre a construção da memória e da verdade numa perspectiva de gênero; sobre o tratamento dado pela ditadura aos filhos e filhas de militantes políticas; sobre a memória das mulheres assassinadas e sobre o aborto na constituinte.

 

Breve historia

Reconhecendo a importância dos novos ensaios incluídos neste livro, eu gostaria de comentar dois aspectos que já estavam presentes na versão original, Amelinha chama a atenção, em sua apresentação, para a ampla disseminação do seu livro, que foi adotado por mulheres dos movimentos populares, por estudantes do ensino médio e universitário. E observa que sua maior emoção foi ver o livro sendo utilizado como material didático para a formação político-sindical, por trabalhadoras do campo e das áreas urbanas.

Eu acho que essa impressionante disseminação tem relação com o conteúdo do livro, mas, também, com o estilo de escrita. É um estilo aparentemente simples, só que ele está embasado em um claro posicionamento teórico/político. O meu ponto aqui é que o estilo de escrita é uma escolha política. Isto parece banal, mas não é, e é algo que vale ser ressaltado no âmbito de uma academia feminista na qual as estudantes têm sido torturadas por diferentes modas teóricas que, independentemente dos seus méritos, muitas vezes compartilham o fato de serem de dificílimo acesso. E a única maneira de poder ir além da academia é a clareza e a simplicidade, não nos conteúdos, mas sim, na escrita. E isto que Amelinha faz de maneira brilhante.

O segundo ponto é que este livro foi inovador em termos de pensar a história do feminismo no Brasil. Digo isto porque, pensando o feminismo como filosofia e como movimento político,  o livro original, publicado no início da década de 1990, realiza uma abordagem pioneira que evoca, no âmbito latino-americano, aspectos importantes do pensamento feminista decolonial e também dos feminismos negros.

As perspectivas feministas decoloniais têm se disseminado recentemente no Brasil. São abordagens que estão inspiradas no conceito de colonialidade do poder do pensador peruano Anibal Quijano[2] mas que concedem uma relevância ao gênero que não está presente nesse conceito. As feministas decoloniais têm problematizado os discursos hegemônicos que alimentaram as escritas de história, incluindo aqui as escritas dos feminismos “euro-centrados”. E propõem produzir deslocamentos político-epistêmicos, articulando análises e olhares que enfrentam as narrativas convencionais. As narrativas que apagaram as vozes das mulheres, e muitas vezes desconhecem as diferenças entre mulheres.[3]

Essas feministas procuraram construir uma memória que documentasse essas vozes, assim como experiências e processos de ação política ignorados. A ideia é que, mediante essa abordagem, além de visibilizar essas vozes, experiências e ações, os discursos hegemônicos são desafiados. O que é desafiado são as epistemologias desses discursos, tidas como etnocêntricas, racistas, misóginas, hetero-centradas e coloniais.[4] Isto é, o que é desafiado são os temas considerados relevantes para a produção de conhecimento, os paradigmas ou modelos utilizados nesse conhecimento e as formas de validar esse conhecimento.

E ideias análogas foram formuladas no Brasil, particularmente no âmbito dos feminismos negros. Trabalhos como o de Lélia Gonzales, “a mulher negra na sociedade brasileira” que foi publicado na década de 1980, mostra um esforço para alterar a produção de conhecimento, voltado para a história da resistência negra. E anos mais tarde delineia com maior clareza a crítica à construção eurocêntrica do conhecimento re-criada no Brasil, em seu texto sobre amefricanidade.

Trago estas referências porque, de maneira análoga, mas muito antes da disseminação do pensamento feminista decolonial, o livro de Amelinha estava orientado pela ideia de reconstruir uma história do Brasil.  Porque para ela, dar conta de como as mulheres viveram no país a partir do “descobrimento”, requer reconstruir essa história. Mas de maneira crítica, prestando atenção às relações entre brancos, índios e escravos negros. E, nessa história crítica, que começa com a situação das mulheres indígenas, Amelinha faz um esforço por pensar nas raízes do movimento feminista brasileiro, que ela localiza nas lutas anteriormente travadas por mulheres intelectualizadas e de origem popular, como negras nos quilombos e trabalhadoras no mercado de trabalho.

Foi a partir dessa re-escrita da história do Brasil, realizado interseccional,  mostrando como diferentes eixos de opressão afetaram diferentes mulheres, que seguimos, com Amelinha, a resistência de mulheres negras nos quilombos. E acompanhamos a participação das negras no movimento abolicionista no Brasil.  E é muito interessante, quando comparamos este livro com o trabalho de outras autoras que estudaram este tema, como a historiadora June Hahner, que publicou o livro “a mulher brasileira e suas lutas sociais e políticas de 1850 a 1937 (1980).

Esta historiadora afirma que no Brasil, na segunda metade do século XIX, algumas brasileiras de classes altas se dedicaram à benevolência, ao trabalho filantrópico fora do lar. E algumas contribuíram para o movimento de abolição da escravatura. Pois em torno da década de 1860, a abolição se tornou uma meta digna de elogio, como o trabalho de caridade, uma nobre causa, vista como extensão da tradicional benevolência da mulher (p.46). Segundo Hahner, as mulheres tiveram um lugar secundário nessas campanhas, pois em vez de participar de debates públicos sobre a emancipação, ajudaram a levantar fundos para libertar escravos, cantavam árias ou tocavam piano nos encontros abolicionistas. E, na comparação com Estados Unidos, a participação das brasileiras nas campanhas abolicionistas mostram contribuições bem menos significativas que as das mulheres norte-americanas, onde as mulheres serviram nos comitês executivos.

Já o livro de Amelinha menciona as mesmas sociedades abolicionistas femininas no Brasil e corrobora que as mulheres que nelas colaboravam, participaram sobretudo, nas atividades que garantiam a infra-estrutura da campanha. Só que a diferença, e é uma significativa diferença, é que Amelinha observa que estas associações eram iniciativa de parcelas das classes dominantes, que procuravam assegurar para si a direção do movimento no qual os negros já vinham lutando fazia três séculos. E o livro de Amélia Teles inclui mulheres negras no registro dessa luta.

Isto não é nem um pouco banal. Ampliando o olhar, em relação a June Hahner e diversificando as fontes, ela menciona, entre outras mulheres negras, a Luísa Mahim[5], que teria transformado sua casa em quartel general das principais revoltas negras que ocorreram em Salvador, em meados do século XIX. E, essa narrativa de luta situa a Maria Firmina dos Reis, escritora, negra, nascida em São Luís do Maranhão, em 1825, cujo romance Úrsula, é considerado o primeiro romance abolicionista brasileiro, escrito por uma mulher.

Maria Firmina é descrita como uma mulher notável, que fundou uma escola mista para crianças pobres. Nós não trabalhamos, na disciplina que mencionei, este romance, mas trabalhamos com um conto escrito por ela: “A escrava”, publicada em 1887. O conto é fantástico, denuncia a situação da mulher e do negro na sociedade de seu tempo; concede “consciência” aos cativos e apresenta a escravidão sob a lógica social dos próprios escravos. Os escravos aqui não são vítimas passivas, estão dotados de humanidade, de caráter, de amor às suas famílias e de capacidade de ação. E é um conto que denunciando a brutalidade da escravidão e criticando abertamente as leis vigentes, é um apelo fortíssimo ao fim da escravidão.

Trouxe este relato para sublinhar que o livro original de Amélia Teles já mostrava como uma história com uma perspectiva diferente traça outra genealogia da luta contra a escravidão e da participação das mulheres negras nela. E também porque esse livro nos permite perceber como a escolha de fontes, ou de materiais, que não é uma escolha inocente, alimenta essas genealogias diferenciadas, com potencial para transformar o conhecimento.

O livro, claro, traz muitas outras contribuições, mas eu queria valorizar, a partir dos dois pontos que levantei, a importância da publicação desta nova edição, que amplia ainda mais os méritos da versão original.

 

 

 

[1] Adriana Piscitelli é pesquisadora da Unicamp, no  Núcleo de Estudos de gênero – PAGU, professora plena no Depto de Antropologia Social e no Doutorado em Ciências Sociais da Unicamp.

[2] Nesse conceito, Quijano introduz a ideia de raça, que surge com o “descobrimento” e que foi utilizada para reclassificar de maneira estratificada às pessoas na colônia, segundo sua relação com o cristianismo, a pureza de sangue e as línguas europeias. Ele reflete sobre a conformação da modernidade desde o seu lado oculto e genocida, ou seja, desde a experiência da conquista e colonização das populações ameríndias. E define o euro-centrismo como a versão mais completa da evolução humana. O seu correlato seria a compreensão das pessoas das colônias como povos sem história, e a negação de suas epistemologias e inclusive do seu estatuto como seres humanos

[3] MILLÁN Márgara (Coordinadora), Mas allá del feminismo: caminos para andar – 1. Ed. – México, D.F.: Red de Feminismos Decoloniales, 2014, pp.15-35; Yuderkys Espinosa Miñoso, Diana Gómez Correal, Karina Ochoa Muñoz. Tejendo de outro modo. Feminismo, epistemologia y apuestas descoloniales em Abya Yala/Editoras – Popayán: Editorial Universidad del Cauca, 2014, pp.19-36.

[4] Atenção dela esteja voltada, no âmbito da América latina para a questão racial negra.

[5] De acordo com algumas narrativas nasceu na África e com outras nasceu livre por volta de 1812. Teve um filho que se tornaria no poeta abolicionista, Luiz Gama, cujo pai, português, vendeu o filho com 10 anos, para pagar uma dívida a um traficante de escravos.

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