Nascida em uma família de classe média e moradora de uma grande cidade, Lúcia se dividia entre a faculdade e o trabalho como atendente de telemarketing. Em um domingo, Lúcia foi ao cinema com um amigo. Por volta de 20h, tomaram um ônibus para casa. Dentro do ônibus, Lúcia foi espancada e estuprada por seis homens. À beira da morte, nua e sangrando, Lúcia foi deixada no acostamento de uma estrada. Socorrida ao hospital e de pronto desacreditada pelos médicos, morreu treze dias depois da violência sofrida. Lúcia poderia ser uma de nós, de São Paulo, Abaetetuba ou Castelo do Piauí. Mas ela nasceu na Índia e foi batizada Jyoti Singh.

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A história de Jyoti é contada por Leslee Udwin no documentário India’s Daughter, que acaba de ser lançado no Brasil. A partir de depoimentos, sabemos que Jyoti, com 23 anos de idade, estava prestes a realizar o sonho de ser médica. Apesar da família tradicional, tinha aspirações modernas, diz seu amigo. Contrariar as expectativas em relação a seu papel como mulher em uma sociedade extremamente desigual motivou as agressões – é o que se depreende das falas de um dos autores dos crimes e de seus advogados. Ela estava na rua, à noite, sem justificativa e sem a companhia do marido ou de um parente. Questionada, retrucou. Atacada, reagiu à violência. Se tivesse se submetido, não teria apanhado até a morte, nas palavras de seu algoz.

O filme aborda o estupro coletivo e o assassinato de Jyoti em suas diversas dimensões, retratando as condições de vida dos autores dos crimes, as circunstâncias que cercaram o episódio e, em especial, o substrato que possibilita e incentiva a violência contra as mulheres. Os diferentes relatos trazidos pelo documentário detalham a construção da desigualdade entre mulheres e homens na sociedade indiana, que ocorre desde antes do nascimento (com o feticídio feminino) e tem sequência na socialização promovida pela família e ao longo de toda a vida. Assim, o estupro é uma das muitas violências baseadas no gênero que permeiam a existência das mulheres em contextos em que homens são detentores de privilégios e são criados para os defender diante de qualquer ameaça. Nessa disputa, o estupro é uma arma para conter o avanço das mulheres por territórios que lhes são vedados, “um ato de demarcação nas entranhas femininas”, na expressão da antropóloga Debora Diniz.

São perturbadores os trechos em que os entrevistados procuram justificar a violência sexual, ao imputar à vítima a responsabilidade pelo que lhe aconteceu, sem nenhum traço de remorso. Contudo, o filme não compra (e não vende) a associação fácil entre monstruosidade e crime. Também não transmite a mensagem de que a punição é a única resposta, nem a mais adequada. A seletividade da justiça criminal, a necessidade do culto às tradições e à história da Índia e a ampla aceitação social da violência contra as mulheres são alguns dos elementos evocados pelo documentário para tecer uma realidade bastante complexa, com problemas que exigem mobilização, reflexão e profundidade.

Ao destacar a onda de protestos que sucedeu a notícia das agressões, o trabalho de investigação bem-sucedido e a instituição de uma comissão de especialistas para reformar o sistema de justiça, o filme vai além do balanço da tragédia e aponta para perspectivas de mudança. Evidente tributo à memória de Jyoti Singh, India’s Daughter é sobretudo um instrumento de ativismo, um chamado a perceber, pensar e transformar as estruturas que permitem a persistência da violência contra as mulheres no mundo todo.

Fonte: (Fernanda Matsuda, especial para a Agência Patrícia Galvão, 16/09/2015)

 

Sobre a autora:

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FERNANDA EMY MATSUDA

Socióloga e advogada, desenvolve o doutorado sobre crime e punição, tendo o gênero como foco. Foi pesquisadora e coordenadora de grupos de trabalho em organizações como a Escola de Direito de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais. Atualmente é consultora do Instituto Patrícia Galvão, em iniciativas como a campanha Compromisso e Atitude.

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