No DIA 8 de março, na cidade de Campinas, nós, mulheres que lutam todos os dias por vidas sem violência, saímos em marcha pelas avenidas da cidade reivindicando as dignidades que nos são negadas cotidianamente por uma sociedade machista e patriarcal.

Mal o ato havia começado quando na Avenida Francisco Glicério uma companheira foi violentamente detida por policiais militares com a acusação de pixação nas vias públicas.

Não vamos escrever sobre a veracidade da acusação, não vamos escrever sobre legitimidade da pixação em um sistema desigual que preza pela propriedade privada, não vamos escrever sobre legalismos. Vamos escrever sobre o que realmente significa policiais militares homens, fardados e armados, deterem uma mulher no dia internacional de luta pela igualdade de direitos entre mulheres e homens em um país onde a taxa de feminicídio é a quinta maior do mundo (fontes da ONU).

Quando o contingente policial recrutado para “zelar pela segurança” das manifestantes em um ato de mulheres não conta com a presença de uma policial feminina, é necessário ressaltar que isso é uma escolha, realizada por representantes de uma instituição preparada militarmente para lidar com conflitos – e não para o diálogo. Partindo dessa análise, é evidente que não estava nas estratégias da polícia militar, solucionar eventuais conflitos de forma pacífica, tendo em vista que ali nenhuma mulher poderia ser revistada sem que seus direitos fossem violados.

Mesmo assim, os policiais militares homens que abordaram a manifestante, iniciaram uma movimentação de abrir sua mochila enquanto ela estava isolada dos corpos das outras manifestantes, encostada na parede e rodeada de policiais homens. Havendo resistência por parte da mulher detida e pressão da manifestação, os policiais militares homens a arrastaram para dentro de um camburão e a trancaram, sem que ela tivesse contato com suas companheiras.

De dentro do camburão, a mulher não escutava e não era escutada pelas mulheres que rodeavam o carro. A mulher detida levava no rosto a pintura de uma mão vermelha que tapava sua boca. Além desta mulher, houve uma mulher agredida no rosto pelos policiais (todos homens), e uma senhora que teve o celular roubado pelos policiais por estar filmando as agressividades, após o roubo, ela ainda foi empurrada pelos policiais militares e foi mantida lá, no chão sob as vistas dos policiais.

Em um país que violenta 3 de cada 5 mulheres, um país que, por dia, estupra 135 mulheres e assassina 12 mulheres (fontes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública), em um cenário nacional de recrudescimento e retrocessos de direitos humanos, é muito significativo que a polícia militar enquanto instituição que representa um estado com interesse pela manutenção de estruturas de poder nas quais as vidas das mulheres não são prioridade, leve uma manifestante de maneira desmedida para uma delegacia, numa tentativa de desmobilização social.

O que não estava na conta é que levariam junto com ela centenas de manifestantes em marcha até o interior da delegacia, com tambores, gritos de guerra e uma estratégia política rapidamente articulada por grupos diversos. Essa é nossa resposta.

Essa é nossa resposta à arbitrariedade, à violência, ao machismo e ao patriarcado. Quando gritamos “Nenhuma a Menos”, não gritamos de bocas (com mãos vermelhas pintadas sobre) pra fora.

O movimento feminista e nós, Promotoras Legais Populares de Campinas, não mais aceitaremos violência machista de nenhum homem. De nossos pais, namorados ou maridos, amigos, companheiros de luta. Policiais militares. Governadores, Brasil. Não mais recuaremos.

Machistas, atentos: seguimos nas ruas!

Promotoras Legais Populares Cida da Terra de Campinas e Região

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